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MÚSICA

RAFAELA SAHYOUN: TROVÃO EM TERRA MOLHADA

RAFAELA SAHYOUN: TROVÃO EM TERRA MOLHADA

25, 26.06 e 02 e 03.07.26, quintas e sextas às 20h

Trovão em Terra Molhada nasce da inquietação de um tempo hipervelocizado. Nesse cenário de excessos, a violência onipresente, a atrofia da alteridade e a desertificação dos afetos são tragadas por uma normalização amortizante. É um tempo de erosão da presença: um agora fraturado em breves ausências.

Se vivemos em estado crônico de vigília, entre alertas e a gestão algorítmica da catástrofe, algo se perde nas microfissuras dessa tensão contínua: fragmentos de experiência que não chegam a assentar no corpo. O corpo ainda está ali, mas chega defasado, em falha sintomática, como se atravessasse sucessivas desativações de si. Sob hiperexposição, o sistema nervoso ativa mecanismos de conservação e opera por filtragem agressiva. A pulsação do sensível é domesticada e reduzida a ruído de fundo. Anestesiados, habitamos um regime de alerta entorpecido.

Em meio à arquitetura de lapsos da experiência contemporânea, esta dança escolhe ficar com o problema: habitar essa trama de afetabilidades polirítmicas e compor com forças que a excedem. Toma o hiperestímulo como matéria e pergunta: diante da lógica saturada, como o corpo coleta seus fragmentos e se recalibra no cruzamento de estímulos multivetoriais?

Trovão em Terra Molhada propõe uma incursão: um tratado sobre ressonância. Frequências que infiltram superfícies saturadas e encontram eco na matéria, restituindo aos corpos sua potência de reverberação.

Trovão é uma das formas mais antigas da Terra “falar”.

Entre contenção e iminência de transbordo, a obra busca, na multidimensionalidade, recursos de reavivamento. Convoca modos de presença que não recuam diante da sobrecarga, não como espectador externo ao desastre, mas como parte de uma rede que metaboliza o impacto em campo vibrátil compartilhado. Há algo de incidência e descarga elétrica em Trovão em Terra Molhada. Como um impacto em solo encharcado, a força não se encerra na absorção: circula e devolve ao ar vibrações subterrâneas. Nessa zona entre incidência e propagação, a obra metaboliza excessos para reativar a vitalidade, tensionando percepções e interrompendo a inércia de um presente roubado.


Rafaela Sahyoun (1986), paulistana de ascendência árabe, libanesa e palestina, vive e trabalha entre o Brasil e territórios internacionais. Artista da dança e das matérias do corpo, sua atuação desdobra-se entre a criação coreográfica, o campo da educação e na cena como bailarina.

Como coreógrafa, sua obra autoral mais recente é CRUSH, em circulação na Áustria, Portugal, França e São Paulo. Em 2026, estreia a remontagem da obra no projeto CROSSOVER, performada pelo Ballet National de Marseille.

Fôlego (2022) marcou sua primeira criação para o renomado Balé da Cidade de São Paulo, circulando por palcos do Brasil, Alemanha, Suíça e França. Em 2025, Rafaela concebeu BOCA ABISSAL, sua segunda obra para a companhia. Ambas integram o repertório atual da companhia e circularam internacionalmente. O programa duplo de suas obras foi apresentado em palcos emblemáticos como o Théâtre de la Ville, de Paris, e a Maison de la Danse, em Lyon.

Do seu repertório coreográfico, entre outras criações, destacam-se: “NINGUÉM ME SOLTA (Don’t Lose Me)” (2018–2024); “The Trouble Is Wildly Wet” (2024); “Yeah, I’ve Been Watching You Lately” (2023); “Something to Phase Us: Who Goes There” (2022); “Wheel of Radical

Affection” (2021); “VAWM” (2020); e “Pequenos atos para desacostumar” (2014). Educadora e pesquisadora com atuação nacional e internacional, desenvolve uma metodologia integrativa voltada às práticas de dança com extensa facilitação. Atua em contextos de graduação e pós-graduação, companhias profissionais de dança e teatro, impactando a formação de novas gerações de artistas. Formada pela SEAD – Salzburg Experimental Academy of Dance (AT, 2013) e Trinity Laban Centre for Movement and Dance (UK, 2009). Integrou o programa Atlas – Create Your Dance Trails no ImpulsTanz, sob mentoria de Mélanie Demers e Angélique Willkie (AT, 2023).


Direção, Coreografia & Performance: Rafaela Sahyoun

Codireção e colaboração artística: Iaci Lomonaco

Dramaturgia: Iaci Lomonaco & Rafaela Sahyoun

Trilha Original: Yantó

Desenho de Luz: Aline Santini

Operação de Luz: Caio Maciel

Figurino: Iaci Lomonaco, Rafaela Sahyoun e Will Sun

Fotografia: Caio Oviedo

Produção: Ricardo Henrique

Apoio: Corpo Rastreado 

Assessoria de Imprensa: Pevi 56

Mentoria: Ana Cristina Echevenguá Teixeira

Agradecimentos: Balé da Cidade de São Paulo e Célia Helena Centro de Artes e Educação